sábado, 13 de agosto de 2011

Sempre o complexo de vira-latas

Nelson Rodrigues não poderia ter sido mais preciso ao criar essa idéia de complexo de vira-latas do brasileiro, sendo profundo ao tocar na alma brasileira, apontando para isso como causa dos fracassos do nosso futebol. Até sermos campeões do mundo vivíamos em busca da afirmação junto aos países europeus de um status de modernidade e igualdade que nos elevaria a outro patamar, nos transformaria em potência do futebol. Nada diferente da própria sociedade brasileira, que ao final do século XIX e início do século XX importava da Inglaterra as principais novidades, com todo o seu ar aristocrata e elitista, entre essas novidades o próprio futebol. E hoje em pleno século XXI esse complexo não foi superado.

Sediar eventos como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos aumentam a estima do povo brasileiro e o faz acreditar que o país realmente está melhorando, ainda que sua vida continua a mesma com o país sendo a 7ª ou 20ª economia do mundo. O orgulho do povo brasileiro se estendeu além dos dias de uma Copa e se alonga por esses 4 anos que a antecedem, mesmo que essa Copa não seja sua, com o seu suado salário – que não paga suas contas ao final do mês e não pagará também por ingressos – pagando altos impostos para promover um evento que ele assistirá pela tv, como também assistiu na África, no Japão... Aliás, evento esse que o governo prometeu não investir NOSSO dinheiro, deixando a cargo da iniciativa privada.


Tão metendo a mão na nossa Copa

Casos de corrupção, mau uso do dinheiro público, falta de transparência, abuso de poder, desapropriações ilegais, falta de um legado para a população, obras de necessidades duvidosas... é o que tem pra hoje pronto e, infelizmente, sabemos que é só o começo. Mas a preocupação do brasileiro é #ForaMano ou a frase verdadeira, mas que em nada colabora "o Brasil não está preparado pra Copa".

Enquanto no Rio de Janeiro uma manifestação contra CBF e o seu dono Ricardo Teixeira reúne 50 pessoas e conta com ajuda até de senhoras que protestam contra privatização do Parque do Flamengo(!!!), na Argentina – país que o futebol recebe investimento federal – milhares de pessoas em diferentes pontos do país protestam contra uma virada de mesa e o presidente de sua Federação, Julio Grondona. Numa Europa em crise econômica e crescente desemprego, jogadores ameaçam entrar em greve em suas principais ligas, como na Itália e na Espanha. A Inglaterra, país-sede das próximas Olimpíadas, passa por um surto de violência que assusta todo o mundo, obriga o adiamento de jogos de futebol e põe em dúvida a questão da segurança para a realização do evento.

O complexo de vira-latas se foi superado em campo, falta muito pro mesmo acontecer fora deles. Sonhamos com o paraíso de países desenvolvidos, mas não lutamos por ele. Países mais desenvolvidos têm pesadelos com o inferno dos subdesenvolvidos e lutam como podem pra não ser tornar um deles. Se nem o maior orgulho do brasileiro é capaz de comovê-lo a mudança, o que será?

Um comentário:

  1. Parabéns pelo ótimo texto Frazão.
    Sem sombra de dúvida a colonialidade do pensamento ainda nos assombra de tal maneira que ainda não conseguimos pensar em possibilidades para além do des-envolvimento.
    Creio que antes nós devemos abandonar os pressupostos qualitativos impostos e rapidamente absorvidos pela população,combater a putaria dos nossos dirigentes, para depois procurarmos outros projetos societários, projetos estes que não sejam afinados com a modernidade perversa que se encontra em pauta na ordem do dia.
    Descolonizar a sociedade e o futebol é preciso!
    abç

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