quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Proteste Já

No último final de semana, na rodada de clássicos e encerramento do 1º turno do campeonato brasileiro, foram vistos em alguns estádios do país protestos contra o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e do Comitê Organizador Local (COL) Ricardo Teixeira. Finalmente, palavras de protestos não se limitaram a alguns jornalistas e a redes sociais.

Os protestos aconteceram com maior força nos jogos em São Paulo e em Santa Catarina, nesse último após uma liminar na Justiça Federal de Santa Catarina contra a proibição da federação local que censurou as manifestações. Em Minas Gerais houve proibição da Polícia Militar da entrada no estádio das faixas de protestos. No Rio de Janeiro manifestações isoladas, sem adesão das torcidas organizadas que se desprendem de suas raízes de contestação e protesto em sua gênese. Pouco foi falado em jornais e nada foi visto nas transmissões dos jogos.



Recentemente, em uma palestra na Faculdade de Formação de Professores da UERJ sobre os megaeventos esportivos e o seu impacto no Rio de Janeiro e a sua população, Marcos Alvito, presidente e fundador da Associação Nacional dos Torcedores, diz acreditar que a falta de maior engajamento da população contra os absurdos na organização e o desrespeito ao torcedor, os (ainda) frequentadores de estádio, se dá pela construção da imagem do progresso e da modernidade para o país. Corrupção, superfaturamento, abuso de poder, tudo é camuflado pelos "benefícios" que a Copa e os Jogos Olímpicos trarão.

Além disso, acrescento ainda a cultura brasileira onde a perpetuação do poder está presente na política, nas relações sociais e em diversos outros meios e o paternalismo que permite torpe prática. Como pôde ser visto nessas manifestações, não é apenas a alienação da população que a impede de reivindicar e protestar. A rede do Poderoso Chefão do futebol brasileiro se estende além de clubes, federações, mídias esportivas e chega até mesmo a setores púbico que deveriam zelar pelo interesse do povo, lançando mão de meios coercitivos, uma verdadeira ditadura.

Mudanças não se dão de maneira tão simples quanto um click em protestos por redes sociais. A primeira manifestação na arquibancada, habitat natural do torcedor, ainda que tímida e de certa forma reprimida, já é um grande avhttp://www.blogger.com/img/blank.gifahttp://www.blogger.com/img/blank.gifnço. Uma maior adesão de torcedores e apoio político são essenciais para que ahttphttp://www.blogger.com/img/blank.gif://www.blogger.com/img/blank.gif cauhttp://www.blogger.com/img/blank.gifsa ganhe força. Rivalidades a parte, como diz um canto da torcida do Flamengo “Vamos dar as mãos e torcer juntos”.

Quem já luta por uma Copa de todos:

Associação Nacional dos Torcedores www.torcedores.org.br
Confederação Nacional das Torcidas Organizadas www.conatorg.com.br
Deputado Estadual @MarceloFreixo PSOL-RJ
Deputado Federal Romário PSB – RJ
Juca Kfouri @BlogdoJuca
Mauro Cezar Pereira @MauroCezarESPN

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Sócrates

Em meio a notícias sobre o seu grave estado de saúde, nunca é demais dizer: Doutor Sócrates é um filósofo da bola. Todo o conhecimento demonstrado dentro de campo com a bola nos pés faz jus ao nome que carrega. Sua técnica apurada era digna de uma tese de doutorado. Sua personalidade fora dos campos também.




Sócrates é expoente de uma geração de personalidade própria, opiniões formadas e atitudes impensáveis para jogadores de futebol nos dias atuais. Tem curso superior completo ainda nos tempos de jogador e como um verdadeiro filósofo, é um sujeito esclarecido e questionador. Aparece nos anos finais da ditadura no Brasil como um dos líderes da Democracia Corinthiana e no comício das Diretas Já. O Doutor e alguns dos seus contemporâneos apresentavam menos discursos repetitivos e maior espontaneidade. Espontaneidade essa que pode ser vista, por exemplo, em Falcão, seu companheiro na inesquecível Seleção da Copa de 82, ao comemorar seu gol contra a Itália correndo em êxtase, veias saltando e uma explosão de alegria em tom de desabafo que marca qualquer um que assista ainda hoje, quase 30 anos depois.

Atualmente jogadores fazem seu marketing pessoal e se preocupam com uma boa imagem, sem maiores preocupações com temas atuais do nosso país e do mundo. Seus comportamentos são tolhidos pelo politicamente correto. Até mesmo as comemorações perderam um pouco da alegria e a sua espontaneidade com o famigerado João Sorrisão tornando-se moda entre os boleiros.

Não sou adepto de teorias conspiratórias ou de fatalimos. Tentativa de manipulação de comemoração soa como um programa bem maroto instalado na Matrix. Jogadores acéfalos pelo mesmo motivo, idem. O homem é sujeito do seu tempo. O contexto histórico mudou, apenas. A geração atual não precisou lutar e gritar como a de Sócrates, já encontrou muito conquistado ou em vias disso. Mais um motivo pra ser sempre celebrado. Homem sábio, consciente do seu papel e do seu tempo, tornou-se um craque dentro e fora dos campos.

Força em mais essa luta, Doutor!

sábado, 13 de agosto de 2011

Sempre o complexo de vira-latas

Nelson Rodrigues não poderia ter sido mais preciso ao criar essa idéia de complexo de vira-latas do brasileiro, sendo profundo ao tocar na alma brasileira, apontando para isso como causa dos fracassos do nosso futebol. Até sermos campeões do mundo vivíamos em busca da afirmação junto aos países europeus de um status de modernidade e igualdade que nos elevaria a outro patamar, nos transformaria em potência do futebol. Nada diferente da própria sociedade brasileira, que ao final do século XIX e início do século XX importava da Inglaterra as principais novidades, com todo o seu ar aristocrata e elitista, entre essas novidades o próprio futebol. E hoje em pleno século XXI esse complexo não foi superado.

Sediar eventos como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos aumentam a estima do povo brasileiro e o faz acreditar que o país realmente está melhorando, ainda que sua vida continua a mesma com o país sendo a 7ª ou 20ª economia do mundo. O orgulho do povo brasileiro se estendeu além dos dias de uma Copa e se alonga por esses 4 anos que a antecedem, mesmo que essa Copa não seja sua, com o seu suado salário – que não paga suas contas ao final do mês e não pagará também por ingressos – pagando altos impostos para promover um evento que ele assistirá pela tv, como também assistiu na África, no Japão... Aliás, evento esse que o governo prometeu não investir NOSSO dinheiro, deixando a cargo da iniciativa privada.


Tão metendo a mão na nossa Copa

Casos de corrupção, mau uso do dinheiro público, falta de transparência, abuso de poder, desapropriações ilegais, falta de um legado para a população, obras de necessidades duvidosas... é o que tem pra hoje pronto e, infelizmente, sabemos que é só o começo. Mas a preocupação do brasileiro é #ForaMano ou a frase verdadeira, mas que em nada colabora "o Brasil não está preparado pra Copa".

Enquanto no Rio de Janeiro uma manifestação contra CBF e o seu dono Ricardo Teixeira reúne 50 pessoas e conta com ajuda até de senhoras que protestam contra privatização do Parque do Flamengo(!!!), na Argentina – país que o futebol recebe investimento federal – milhares de pessoas em diferentes pontos do país protestam contra uma virada de mesa e o presidente de sua Federação, Julio Grondona. Numa Europa em crise econômica e crescente desemprego, jogadores ameaçam entrar em greve em suas principais ligas, como na Itália e na Espanha. A Inglaterra, país-sede das próximas Olimpíadas, passa por um surto de violência que assusta todo o mundo, obriga o adiamento de jogos de futebol e põe em dúvida a questão da segurança para a realização do evento.

O complexo de vira-latas se foi superado em campo, falta muito pro mesmo acontecer fora deles. Sonhamos com o paraíso de países desenvolvidos, mas não lutamos por ele. Países mais desenvolvidos têm pesadelos com o inferno dos subdesenvolvidos e lutam como podem pra não ser tornar um deles. Se nem o maior orgulho do brasileiro é capaz de comovê-lo a mudança, o que será?

sábado, 6 de agosto de 2011

Profissionalismo e a essência do esporte

Os esportes, em geral, surgiram como uma forma de lazer em que as pessoas extravasam suas emoções e sentimentos de forma saudável e lúdica. É o que vemos hoje? Existe um limite saudável pra por esses sentimentos em um jogo? O profissionalismo permite isso?



Penso nessas questões acompanhando o ocorrido com Fred e Rafael Moura essa semana. Perseguição e ameaças são casos de polícia, a palavra futebol e torcida não deviam nem ser lembradas pra se tratar do assunto. Violências à parte, o fato mostra um lado paradoxal do futebol atual. Qualquer negócio em que se exija excelência, o profissionalismo é o primeiro passo para o sucesso. O que não quer dizer que se deva limitar sua vida para tal. Aí que entra o sentimento nesse caso. É exigido dos jogadores modernos um profissionalismo baseado nos sentimentos e nas emoções que caracterizaria o esporte. Caracterizaria se não fossem marginais travestidos de torcedor.

A megaexposição, a violência e o egoísmo se espalham em nossa sociedade na forma de restrições a liberdade do próximo. Essa intolerância e falta de respeito superam não só os limites morais, mas também, no caso, o do real significado do esporte. Afinal, por que se envolver em algo que deveria ser saudável, a partir do momento que isso se torna uma doença como o fanatismo?

PS: Fred não jogou a partida após o incidente, contra Internacional e também não jogará contra América-MG, amanhã. Enquanto isso, Rafael Moura jogou, fez gol e está confirmado na próxima partida. Cada um reage de uma forma, mas cabe a pergunta: Fred realmente não estaria sendo um bom profissional? Imprensa sensacionalista não colabora com a discussão e põe o jogador contra a torcida.

E afinal, qual é o limite do profissionalismo?

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O pontapé inicial

Ainda empolgado com o espetacular Santos 4 x 5 Flamengo no último dia 27/07, resolvo por em prática - com um certo atraso - uma antiga vontade de assinar um blog sobre futebol. Uma partida como essa deixa qualquer um convencido de que entende de futebol, só faltando um diploma depois de uma aula de futebol como foi esse jogo raro de se ver.

O que me motivou não foi apenas isso. Uma expressão foi muito repetida por especialistas, torcedores e gatos-mestres em todos os programas esportivos, jornais, redes sociais, botecos, mas sem despertar grande atenção da maioria: foi uma partida histórica.

Apaixonado por Futebol e História como eu sou, fui levado pelas ondas de saudosismo (de pessoas mais novas que eu, inclusive) para tempos antigos, tempos esses em que se praticava o futebol-arte, mais bonito e melhor jogado por atletas de excelente técnica. Ao mesmo tempo era menos visto pelas TVs e não existia Internet. Era mais sentimento e menos business. Era mais futebol em sua essência.


Johan Cruyff: paradigma do futebol moderno

Grandes mudanças no jogo e no nosso cotidiano seguem todos os dias em ritmo frenético, num processo histórico em que muitas vezes nosso olhar distraído não atenta para a íntima relação entre diferentes aspectos da nossa sociedade. Sim, o futebol está ligado a nossa sociedade, muita além das festas patrióticas de uma Copa do Mundo ou de críticas a organização da mesma aqui no Brasil. A nossa sociedade contemporânea é refletida no futebol, servindo muitas vezes até mesmo como próprio instrumento de mudanças, tornando-se muito mais do que um monte de marmanjo correndo atrás de uma bola.



O que busco aqui é enxergar o futebol além das quatro linhas. Não sei usar do lirismo pra falar de um jogo que abusa do escárnio. Prancheta de especialistas temos várias por aí e comentaristas do óbvio, idem. Então a idéia é ver tudo o que envolve o futebol, o campo esportivo como um todo: jogo, torcida, política, cultura, economia, etc. Pra isso a bola tem que rolar. E nos últimos anos ela nunca rolou tão bonita no Brasil como nesse Santos x Flamengo histórico. Esse jogo já é outra história.