Após uma série de lutas e manifestações por seus direitos, ocorrida nos EUA, o Dia Internacional do Trabalhador surgiu alguns anos após, na Segunda Internacional Socialista, em 20 de junho de 1889, em Paris. Os jogadores do futebol parecem alheio a tudo isso. Até porque a frieza dos números às vezes é cruel, não deixa margem pra interpretações. Os salários milionários dos grandes jogadores de futebol causam indignação, principalmente em países como o Brasil, onde muitos trabalhadores são explorados em jornadas de trabalho extenuantes em troca de vencimentos que nem sempre suprem suas necessidades básicas. Pensando dessa forma, como considerar esses atletas trabalhadores comuns?
Penso que o problema não deve passar por aí por diversas razões. Primeiramente, essa realidade vista na forma de vários dígitos não compreende todo o universo dos jogadores profissionais. A maioria vive de pequenos salários, instabilidade no emprego e ainda a incerteza de receber por seu trabalho, graças as péssimas administrações dos clubes. Então, uma minoria privilegiada é a responsável por esse olhar crítico à profissão.
Outra razão que me leva a pensar diferente é sobre a relevância dos atletas profissionais a sociedade. Ora, me parece de razoável relevância sujeitos capazes de comover milhares de pessoas em torno de cada jogo, de movimentar bilhões da economia mundial e até mesmo capazes de influenciarem na política de um país, como podemos ver claramente com a proximidade da Copa do Mundo aqui no Brasil. Os jogadores de futebol são partes importantes de um negócio altamente rentável; nesse caso é natural que seus ganhos sejam proporcionais (longe de concordar com certos valores, mas dentro desse modelo econômico em que vivemos é compreensível).
Dessa forma, acredito que a dificuldade maior de reconhecer os jogadores de futebol como trabalhadores é a falta de uma consciência de classe dos próprios jogadores. O que vemos são atitudes isoladas, em busca de benefício próprio. Raros são os exemplos de mobilização em grupo na busca de seus direitos de trabalhador. Reivindicações salariais e cobranças são feitas individualmente acionando os clubes na justiça, dificilmente se vê um time ou um sindicato tomando atitudes como essa coletivamente.
Nessa temporada alguns desses raros exemplos de atuação coletiva ocorreram, como uma ameaça de greve dos atletas profissionais na Itália e na Espanha (2 dos países com futebol mais rico do mundo), em favor de maior equilíbrio econômico entre os clubes. Aqui no Brasil jogadores do Vasco e Bonsucesso ficaram alguns dias sem treinar ou ir pra concentração em protesto contra salários atrasados. E o mais recente ocorreu esse final de semana em Portugal, quando os jogadores do União de Leiria rescindiram seus contratos com o clube – também por falta de pagamento – fazendo com que o clube entrasse em campo com apenas 8 jogadores, entre emprestados e oriundos das categorias de base.
Isso ainda é muito pouco. Jogos com horários inadequados são marcados, campeonatos com número excessivo de jogos são criados, férias são atropeladas, preparação deficiente todo ano... Os contratos são assinados e os atletas seguem a máxima “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Enquanto não houver maior consciência da classe e sua conseqüente mobilização, serão tratados assim: como simples peças da engrenagem do futebol, nunca como trabalhadores possuidores de seus direitos e, principalmente, os principais responsáveis pelo esporte.
