segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Ano novo, futebol velho

Mais um janeiro começa e com ele se renovam as esperanças da humanidade. Desejos de paz, prosperidade e vida nova se repetem ainda que a maioria não faça nada pra mudar. O final de ano deixou de ser apenas o ciclo completo da Terra em torno do Sol, para se tornar um motivador emocional. É uma época de reflexões, onde erros e acertos são colocados na balança, com a virada do ano se tornando uma nova chance. Essa reflexão no futebol brasileiro chegou em forma de lamentações e pesares após a derrota do Santos para o Barcelona na final do Mundial Interclubes da FIFA.

Eu comecei essa reflexão me remetendo a uma outra final de Mundial. Como bom flamenguista e amante do futebol-arte, comemorei os 30 anos do título contra o Liverpool. Vi na tv programas e reportagens dedicadas ao jogo, ouvi pelo rádio a transmissão original da partida ao mesmo tempo em que assistia ao jogo pela Internet na íntegra, li matérias especiais de jornais de hoje falando sobre aquele time histórico, li jornais da época dando conta da festa da torcida. Em tudo isso fica clara a consciência de que aquele time e aquele momento seriam históricos.

Lembro do Flamengo/81 e automaticamente da Seleção Brasileira/82 inspirado no que alguns jornalistas e o próprio treinador Pep Guardiola disseram após a partida contra o Santos: o Barcelona faz (muito bem) o que faziam os times brasileiros em outros tempos, jogando um futebol de bom toque de bola e muita técnica. A constatação da imensa superioridade técnica que alcançou esse time do Barça e essa afirmação de Guardiola caíram como uma bomba no futebol brasileiro. Simplesmente, o futebol brasileiro deixou de ser o melhor do mundo, deixou de jogar o futebol mais bonito. O nacionalismo exacerbado que previa vida dura pro Barcelona em campos brasileiros, saiu do salão constrangido com o baile que a equipe santista assistiu de camarote.

Essa crise técnica no futebol brasileiro não é algo recente. Esse é um processo pelo qual o futebol brasileiro vem passando desde os anos 80. Nossa última grande Seleção foi a de 1982 e o grande time foi esse Flamengo de 1981 que eu assisti por vídeos. Desde então muitos títulos foram conquistados por times brasileiros além de duas Copas do Mundo, mas nenhum time tinha esse brilho que encantava o mundo, o pai e o avô de Guardiola, como o mesmo dissera. As derrotas em Copas do Mundo que levaram a um jejum de 24 anos sem título, não é a única culpada. No mesmo período, um projeto de modernização começou a ser implantado no futebol brasileiro. A Europa passou a ser vista como modelo para nosso futebol, mesmo quando ainda tínhamos os melhores jogadores. Copiamos táticas, estratégias, estilo... menos o seu profissionalismo.

Dizem que o futebol brasileiro perdeu sua identidade. Sempre nos apegamos ao chamado futebol-arte, mas não raras vezes o abandonamos, como agora. Mano Menezes assumiu o comando da Seleção prometendo a volta do protagonismo do futebol brasileiro, mas ainda não conseguiu mudar esse panorama. Não é tão simples assim. Afinal, são mais de 20 anos investindo em um modelo que prioriza resultado e jogadores que agradem aos europeus. Buscamos o pragmatismo e o futebol de resultados dos europeus, ironicamente tão criticados e copiados por aqui. Não seria esse o nosso verdadeiro complexo de vira-latas? Mais do que se sentir inferiorizados e temer, aos olhos dos brasileiros o europeu é sempre o modelo a ser seguido. Eles são organizados, modernos e desenvolvidos, ao contrário do Brasil onde o improviso e o jeitinho solucionam tudo e nos impede de se desenvolver. O que um dia foi nosso maior orgulho e símbolo da nossa identidade se perdeu por aqui e foi descoberto pelos europeus. Mais uma vez vieram aqui e pegaram o que temos de melhor e nós, subdesenvolvidos e colonizados, compramos essa idéia de desenvolvimento.

Em janeiro sempre aconteça a Taça São Paulo de Juniores, onde grandes promessas do nosso futebol surgem todos os anos. Ou pelo menos é a nossa esperança de fim de ano. Mais um desejo que poucos fazem algo pra se tornar realidade.